Às vezes você não olha para o passado porque ele parece trazer apenas dor, mas lá no passado tem muitas coisas boas. Nós temos a estranha mania de nos conectarmos principalmente com coisas ruins. É muito comum que, quando uma pessoa que faz muitas coisas boas em sua vida comete um erro, ela seja lembrada pelo erro que cometeu e que todas as suas virtudes e seus acertos caiam no esquecimento. A mesma coisa acontece quando nos referimos ao passado. Nos conectamos muito mais com as dores, os sofrimentos, os problemas, as desavenças, do que com os momentos felizes, as vitórias, as boas lembranças, que provavelmente são muito mais numerosas do que os aspectos negativos.
Quando eu vejo uma foto da minha infância ou da minha adolescência, eu me conecto com o passado não apenas de maneira racional, mas emocionalmente. Não acontece apenas uma lembrança, é muito mais que isso, desencadeia-se uma experiência emocional que passa pela recordação não apenas de fatos, mas de sentimentos; é possível reviver a experiência emocional de um determinado momento ou de uma determinada fase da vida. E, associada a esta experiência, há muita história e uma perspectiva pessoal de mundo bem diferente da atual.
Geralmente, deixamos de olhar para o passado porque não temos “tempo”. Estamos mais preocupados em trabalhar, sobreviver, estudar, cuidar dos filhos, etc. No entanto, olhar para o passado é importante, pois é onde podemos conectar-nos com nossa verdadeira essência. Na infância não estávamos ocupados com sobreviver, trabalhar ou cuidar de filhos e não tínhamos que representar nenhum papel. Lá no passado está a nossa versão mais pura, os nossos valores originais. Tínhamos ideias para o futuro, sonhos, desejos, ainda com o espírito muito livre e apaixonado.
Enviei a uma amiga algumas fotos de quando tínhamos 17 anos de idade e quando ela as viu, disse que a gente vivia um “vir a ser”. Achei muito interessante, porque só é possível ter esta percepção a partir de um ponto de vista futuro, já bastante longínquo em relação àquele momento, quando não só já viemos a ser, como já estamos em um ponto do tempo além daquilo que nos tornamos.
Olhar transtemporal
Quando eu me conecto com aquele meu eu, através das fotos, o passado pouco a pouco começa a voltar, as recordações aos poucos vão surgindo e acontece um processo muito interessante. Por um lado é como se aquele eu do passado pudesse ver o seu futuro, pudesse conhecer o caminho que vai percorrer e, a partir desse ponto de vista, analisar o que aconteceu no percurso, quais as escolhas que fez, onde chegou e analisar se as escolhas foram acertadas ou não. Por outra perspectiva, também é possível ver o mesmo trajeto olhando no sentido contrário, do eu adulto de hoje em direção ao eu do passado, e da mesma forma analisar o trajeto.
Juntando as duas extremidades temporais e o percurso da minha história, consigo ampliar a minha visão sobre a minha vida, avaliar o que fiz no percurso e este processo pode me ajudar a ressignificar algumas coisas e, se necessário, corrigir o rumo para onde estou indo ou a forma como estou conduzindo a jornada.
Não olhar para o passado é desperdiçar um valioso tesouro. Cada um de nós tem material em abundância para pensar sobre a sua vida, sobre o seu valor, sobre o seu potencial. Não é por acaso que sempre que buscamos uma terapia, o terapeuta nos ajuda a olhar para o passado.

O passado está presente
Acredito que é saudável nos conectarmos com os momentos felizes da nossa vida. Não devemos desperdiçar esse material de cura, de crescimento, de superação. Parece que o passado é algo que não existe, que já passou e portanto não tem valor e não interessa, mas ele existe, é real e está muito presente, mesmo que em silêncio.
E se você tem algum problema com ele, certamente você precisa olhá-lo. Não é necessário ter medo. Observe que quando você tem um problema, para resolvê-lo, a primeira coisa que precisa fazer é olhar para esse problema. Se você é gordo, mas não admite, você não consegue combater a obesidade. Se você não tem facilidade para se relacionar e quer resolver isso, você precisa primeiro admitir que tem essa dificuldade. Com o passado é a mesma coisa. Se você tem um problema com ele, você só vai resolver se encara-lo.
Busque fotos da sua infância, procure parentes, colegas de aula e amigos que conviveram com você, reviva os bons momentos através de conversas com estas pessoas, passe por cima de mágoas, de orgulho e outros sentimentos que você alimenta por muito tempo e você terá possivelmente grandes revelações e surpresas. Certamente, muita coisa mudará em sua vida. Lembre-se de que aquelas pessoas do passado provavelmente também mudaram e que elas são muito mais do que aquelas pessoas que você relaciona aos eventos que geraram as imagens e os conceitos que você carrega com você até hoje.

