A cineasta canadense Sarah Polley lançou em 2012 Histórias Que Contamos, um documentário sobre sua vida, um filme instigante e ousado que tem a capacidade de inspirar aqueles que gostariam de resgatar as suas histórias de vida.
Uma paisagem invernal vista através da janela de um trem e cenas de uma família na década de 70 registradas em super8 abrem o filme.
Em voz off, uma epígrafe: “Quando estamos em meio a uma história, ela não é história ainda; é apenas uma bagunça, um barulho tenebroso, uma cegueira, um destroço de vidros estilhaçados e de madeira partida, como uma casa num redemoinho ou um barco esmagado por icebergs ou arrastado para as corredeiras, onde todos a bordo se sentem incapazes de pará-lo. Só mais tarde é que a narrativa se configura numa história, quando a contamos a nós mesmos ou a outra pessoa”.
Cenas espontâneas da preparação dos entrevistados demonstram o medo da câmera, a preocupação deles com a aparência ou a dúvida sobre o que falar. A diretora se faz presente, assim como os membros da equipe, que aparecem vez ou outra ajustando os equipamentos. É provável que a intenção tenha sido fazer com que o espectador saiba que este documentário não pretende esconder nada e busca retratar a verdade.
Tom investigativo
O filme se desenvolve em torno de um dilema: seria o pai de Sarah seu verdadeiro pai? Num formato quase investigativo, a diretora vai montando seu quebra-cabeças para descobrir o que realmente aconteceu em sua família. Aprendemos que nem sempre a realidade é o que parece ser.
Uma das entrevistadas pergunta: “Mas quem vai querer saber sobre a nossa família?” e responde: “Todas as famílias têm a sua história e acho interessante olhar para este episódio e ver a forma como teve impacto de tantas maneiras diferentes, sob vários ângulos.”
Uma estrutura
Contar a sua história de vida é como contar qualquer outra história. Deve haver um motivo e, a partir dele, um eixo condutor em volta do qual outros elementos se agregam para contextualizar, gerar dúvidas, apresentar contradições, dificuldades e outros ingredientes necessários para fazer a narrativa avançar até o desfecho.
A personagem central do filme é Diane, a mãe de Sarah, que morreu de câncer quando Sarah era ainda muito pequena e que só existe a partir da memória dos entrevistados e das cenas de época gravadas por seu pai em imagens por vezes tremidas, por vezes desfocadas, escuras ou mal enquadradas, mas que transportam o espectador no tempo, ilustram as histórias contadas e convidam para um mergulho na narrativa.

Durante as filmagens, a diretora fez descobertas que mudaram aspectos da sua vida. As entrevistas trouxeram fatos desconhecidos, responderam dúvidas, alteraram conceitos e deram luz a revelações que modificaram a sua história.
O filme altera a realidade
Quando Sarah começou as gravações de seu documentário, ela não sabia se este seria um filme apenas para ela ou se ele poderia chegar a ser exibido para outras pessoas. Ela também não tinha certeza do formato, nem se conseguiria chegar a terminar um dia. O que ela sabia é que desejava fazer um filme sobre a sua vida.
Se Sarah não tivesse realizado o filme, provavelmente nada do que foi revelado teria vindo à tona, distorções da verdade teriam sido mantidas, julgamentos continuariam incorretos, dúvidas permaneceriam e dores ainda estariam sendo sentidas. Os depoimentos apresentam fatos há muito represados e cumprem um papel libertador, reorganizando as energias do passado.

Para Sarah, o tema deste documentário é a memória e a forma como contamos as histórias da nossa vida. É dar vida a alguém através das histórias que contam dela, resolvendo as discrepâncias dos relatos. Segundo ela, como temos pouco tempo para olhar nosso passado, nossas memórias ficam repletas de pormenores ficcionais.
Assista no youtube (link para o filme)

