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Muito além da propaganda de margarina

Publicado em: 15 de maio de 2021
Família Cesconetto Silva

Quando eu era pequeno, pensava que toda família era como a minha. Pai, mãe, irmãos, avós maternos e paternos, tios, tias, primas e primos. Minha mãe falava de sua família que veio da Itália e meu pai da sua que veio de Portugal. Eu e minhas irmãs iríamos crescer e ter nossas famílias da mesma forma que todos os outros. Era assim que eu via as famílias nos filmes da tv, era assim que as famílias apareciam nos meus livros de escola e era assim que a religião católica dizia que uma família deveria ser. 

As publicidades mostravam famílias idealizadas, as famílias das propagandas de margarina, como costumávamos chamar. Eu mesmo fotografei algumas publicidades com essas famílias brancas, ricas e felizes. Para vender um colchão, bastava mostrar um casal em seu lindo quarto iluminado com os primeiros raios do sol e os filhos entrando correndo pela porta e pulando na cama para acordá-los.

A realidade que se impõe

Mas a vida não era como tentavam me mostrar nos livros, na tv ou na missa. À medida que eu conhecia outras famílias, percebi que a realidade não era exatamente como tentavam me fazer crer, fui observando que nem todas as famílias eram como a minha. 

Conheci amigos de escola cujos pais eram separados; o pai de um amigo meu morreu quando ele ainda era pequeno e ele ficou morando apenas com a sua mãe; uma amiga minha era revoltada com seus pais porque brigavam o tempo todo e tinham sérios problemas financeiros. Entendi que tinham famílias grandes e pequenas, famílias ricas e pobres, famílias sem pai ou sem mãe, famílias de pais separados, que umas famílias abandonavam suas crianças, enquanto outras as adotavam. E percebi também que não era verdade que as famílias que conseguiam manter o padrão eram necessariamente mais felizes ou melhores que as demais.

Família Cesconetto Silva
Família Cesconetto Silva

Minha fase de infância se foi, na adolescência dei o primeiro beijo, vivi o meu primeiro romance e tive minha primeira relação sexual. Aos dezenove anos, conheci minha primeira companheira, com quem vivi durante cinco anos e aos vinte e nove, conheci a mãe da minha filha, com quem vivi dezesseis.

Hoje, eu moro em minha casa e a Helena, minha filha, com a sua mãe, em  nosso apartamento. Esta é a minha família, é a família da minha filha e é a família da mãe dela, diferente daquelas descritas nos livros de escola ou mostradas nas publicidades. Mesmo assim, tivemos muitos momentos lindos nos cafés da manhã com margarina e a Helena muitas vezes veio saltitar sobre nós em nossa cama iluminada pelos raios de sol da manhã.

A vida não é uma idealização e nem pode ser ditada por normas. A vida é feita de momentos, alguns bons e outros ruins, e é uma grande jornada repleta de experiências, através das quais vamos crescendo, amadurecendo, aprendendo e ampliando nossa visão e mundo. 

Além dos “padrões”

O que importa em uma família é que entre os seus membros exista amor. Não existe um modelo certo. Não há nada de errado em casais homossexuais com filhos, nem na união entre pessoas de diferentes etnias ou de diferentes religiões ou qualquer outro tipo de união. Negar essas possibilidades e querer impor uma única forma de estrutura familiar como sendo a correta gera dor, injustiça, exclusão e conflitos. 

Precisamos de paz, de amor e de respeito e é isso que devemos ensinar aos nossos filhos. Aliás, essa é uma das principais funções da família, educar os filhos, transmitir valores a eles, orientá-los para a formação do caráter, prepará-los para a convivência social e para a vida em sociedade.

Rever e analisar a nossa história ajuda-nos a conhecermo-nos melhor e a compreender porque somos como somos. Refletir sobre nossa história e sobre como nossos pais nos formaram nos ajuda a ter mais consciência sobre a forma pessoal de educar nossos filhos. Dessa maneira, podemos aproveitar melhor os aspectos positivos da nossa experiência, tentando melhorar e evitar repetir os aspectos negativos.

Somos sujeitos ativos de nossa história e nossa história faz parte da história das sociedades. Quando contamos as nossas histórias, nos libertamos, nos emancipamos, pois as palavras são cheias de luta, de dor, de alegria, de tristeza, de doença, de saúde, de encontros, de desencontros, de vida, de morte e de esperança. As palavras têm vida, elas contam histórias que iluminam o presente e dão novas perspectivas ao futuro.

Laços que nunca desatam

É na família onde nascemos, somos amamentados, crescemos, envelhecemos e morremos. Ela é o espaço social onde se realizam os fatos da vida, onde ouvimos as primeiras falas, com as quais construímos a nossa auto-imagem e a imagem do mundo exterior, onde aprendemos a falar e dar sentido às experiências que vivemos. 

Seja como for composta, ela é o filtro através do qual começamos a ver e a significar o mundo, processo que se inicia ao nascermos e que dura toda a vida, a partir dos diferentes lugares que ocupamos nela.

Feliz dia internacional da família!

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