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Maria Estela, Simples e Princesa

Publicado em: 23 de maio de 2021
Livro Simples e Princesa de Maria Estela Kubitschek Lopes

Livro autobiográfico de Maria Estela Kubischek Lopes
Resumido por Charles Cesconetto

Minas Gerais, 1940. Oswaldo era um sargento da polícia militar de MG e viajava por diversas cidades do interior do Estado de Minas instalando equipamentos de telegrafia, enquanto Judith, sua esposa, professora, ficava em Monte Claros, na casa de seu pai, uma residência simples em uma rua de terra batida, cuidando, sozinha, dos filhos Florinda, Edson e Blandina (Dina). 

Devido às difíceis circunstâncias, eles permitiram que a filha Dina, com um ano e três meses de idade, fosse viver em Belo Horizonte com Eulália, prima de Judith, e seu marido, Armando Matta Machado. Em 10 de dezembro de 1942, nasceu Maria Estela de Oliveira Mata. Dois anos depois, nasceu Geraldo e em seguida, Antônia. Às vezes, Dina ia a Montes Claros visitá-los e Maria Estela, muito pequena, não entendia que Dina era sua irmã. Da mesma forma, Dina, uma menina meiga e muito tranquila, parecia também não entender que aquela era a sua família biológica. 

Em 1947, quando Maria Estela completou 5 anos de idade, a família precisava partir para uma nova cidade e decidiu passar o Natal em Belo Horizonte, na casa de Eulália e Armando. A experiência de conhecer uma cidade grande emocionou Maria Estela, uma criança muito alegre e curiosa. Durante os dias que ficou com Dina, as duas brincaram como se fossem amigas desde sempre. Foram dias especiais, pois Maria Estela viveu seu primeiro Natal com presentes, uma árvore e todo o ritual tradicional que ela nunca pôde ter, devido às dificuldades financeiras de seus pais.

Juscelino Kubitschek era deputado federal por Minas Gerais e morava no Rio de Janeiro, mas viajava sempre a seu Estado, para visitar a sua família e fazer contatos políticos. Um destes amigos era Armando, o pai adotivo de Dina, de quem Márcia, filha de JK, tornou-se amiga.

Na noite de Natal, Armando, à pedido de JK, conversou com Oswaldo sobre a possibilidade de Maria Estela ficar uma temporada com os Kubitscheck, pois Dona Sarah havia manifestado a ele e a sua esposa o desejo de encontrar uma menina que pudesse fazer companhia à Márcia, pois ela já não podia mais ter filhos e não queria que a filha fosse criada apenas em meio a adultos, sem a presença de crianças. Oswaldo e Judith pensaram muito e avaliaram que seria uma oportunidade para Maria Estela, pelo menos até eles conseguirem estabilizar-se na nova cidade para onde estavam indo. 

Na manhã seguinte à noite de Natal, Oswaldo e Judith conversaram com Maria Estela e explicaram-lhe que ela não iria com eles e que ela passaria uma temporada na casa de uns amigos de Armando e Eulália, para brincar com a filha deles que era muito solitária. Maria Estela gostou da ideia, pois poderia ficar mais um pouco com Dina e estava curiosa para saber como era uma menina que não tinha irmãos com quem brincar. Embora cheia de expectativas, Maria Estela ficou angustiada com o afastamento da sua família, pois era muito ligada a todos eles. 

Na noite anterior à ida para a casa dos Kubitschek, Maria Estela sentiu um grande vazio, pois caminharia por um mundo novo e desconhecido, no entanto encontrou forças na fé e no desejo que existiam dentro de si. Estava preparando-se para seu verdadeiro destino e ficava imaginando como seriam Márcia e seus pais. Na manhã seguinte, enquanto aguardava que viessem buscá-la, suas expectativas e receios misturavam-se a uma enorme curiosidade.

Quem é esse Juscelino?

Foi buscá-la um motorista cujo nome também era Juscelino. Quando ele se apresentou, Maria Estela não entendeu que ele era o motorista e toda a imagem que ela havia criado, a partir das descrições que lhe haviam feito a respeito da família Kubitschek, se desfez, pois aquele Juscelino não combinava com a pessoa que ela havia criado em sua imaginação. No caminho, Maria Estela perguntou se ele era mesmo o Juscelino para a casa de quem ela estava se mudando e quando ele explicou quem ele era, as imagens voltaram a brotar em sua cabeça. 

O motorista lhe disse que estavam indo para a rua Montes Claros. Outro momento de confusão para Maria Estela, que entendeu que estariam voltando para a sua cidade natal. Em verdade, coincidentemente, a casa da família Kubitschek, em Belo Horizonte, ficava na rua Montes Claros. 

Quando Maria Estela e Dina, que a acompanhava, chegaram à casa de JK, à sua espera estavam Juscelino, Sarah, Márcia, Geraldo (irmão de Sarah) e sua esposa Odete. Maria Estela foi recebida com muito carinho, com o sorriso de JK e os beijos e abraços de todos. Maria Estela, um pouco amedrontada, foi ao encontro de Márcia, que tinha o mesmo sentimento. As duas sentiram uma grande empatia uma pela outra, deram-se as mãos e foram brincar. À noite, cansadas e felizes, foram dormir no mesmo quarto. Maria Estela sonhou com os lindos personagens reais, não mais frutos de sua imaginação, mas do que viveu durante este primeiro dia na nova casa. Iniciava-se uma nova fase na vida de Maria Estela.

Sarah ausentava-se com frequência, pois, como esposa de político, tinha um trabalho social intenso. Márcia tornou-se amiga e cúmplice de Maria Estela e as duas faziam tudo juntas. Maria Estela gostava mais de praticar esportes e fazer trabalhos manuais. Na escola, adorava a hora do recreio para brincar com seus colegas. Enquanto isso, Márcia preferia atividades intelectuais, como ler e ouvir músicas clássicas. As duas eram bem diferentes, mas se completavam. Maria Estela perguntava a Sarah o porquê de tudo. Ela tinha sede de aprender e de conhecer.

JK, quando não estava viajando, fazia questão de fazer as refeições em casa, sempre com um sorriso largo, jeito brincalhão e afetuoso que conquistava Maria Estela a cada dia. Os Kubitschek dividiam-se entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No Rio, moravam em um apartamento na rua Sá Ferreira, em Copacabana. Em Belo Horizonte, moraram primeiro na rua Montes Claros e depois na rua Ouro Preto. 

Neste início, Maria Estela, mesmo sendo chamada por Sarah e JK como filha, tratava-os por Dr. Juscelino e Dona Sarah, mas no dia em que foi crismada por eles, passou a chamá-los de padrinho e madrinha.

Um horizonte diferente

Na primeira viagem de Maria Estela ao Rio, quando ela viu pela primeira vez o mar, ficou calada, estática e absolutamente deslumbrada com a quantidade de água diante de si. Juscelino estava com ela e lhe falou que também ficou encantado na primeira vez que viu o mar. Naquele dia, na esquina da avenida Copacabana com a rua Sá Ferreira, Maria Estela pensou em sua família e nos novos horizontes que se abriam em sua vida e perguntou-se: “que horizonte estará vendo mamãe Judith?”

A vida no apartamento, para Maria Estela e Márcia, era muito divertida. Ela e Márcia brincavam no corredor, iam à praia juntas e seus aniversários eram comemorados no mesmo dia. Eram momentos muito especiais.  Sarah colocou as filhas num curso de natação no Copacabana Palace e a professora era Maria Lenk, campeã brasileira de natação. Na primeira aula, as duas ficaram sentadas na borda da piscina, enquanto Sarah as observava com o auxílio de binóculos.

No primeiro Natal com os Kubitschek, Maria Estela viveu uma experiência ainda mais emocionante do que no natal anterior, na casa de Dina, pois o Papai Noel foi visitá-los. O regresso de Maria Estela ao convívio com os pais foi sendo adiado e o sentimento de apego a estas pessoas foi crescendo. Maria Estela sentia saudades de seus pais e seus irmãos, mas não revelava seus sentimentos, pois ao mesmo tempo, recebia muito carinho, atenção e afeto por parte dos Kubitschek. Por um lado a saudade e por outro um apego a esta nova família.  JK e Sarah percebiam a angústia de Maria Estela e davam-lhe sempre notícias de sua família. Preocupados com a felicidade da menina, não deixavam que se quebrasse o elo entre ela e os seus familiares, mas Maria Estela, devido ao tempo e à distância, começou a ter dúvidas sobre o amor de seus pais biológicos por ela.

Com 8 anos de idade, Maria Estela, acompanhava Sarah e Márcia aos comícios de Juscelino e, aos poucos, ela se dava conta de que estava fazendo parte de uma família especial. JK foi eleito governador de Minas e eles mudaram-se para o Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. Para as meninas, era apenas uma casa muito grande, com espaço para muita brincadeira. Havia muitos empregados e funcionários e muito movimento de pessoas. Maria Estela aproveitava cada espaço da grande casa e envolvia Márcia, sua prima Beatriz e Diana, sua futura cunhada, em suas brincadeiras.

Sarah sempre orientou suas filhas para não se sentirem diferentes das outras pessoas. Dizia a elas que elas eram absolutamente iguais a todo mundo, que não eram mais bonitas, nem mais inteligentes, nem mais simpáticas do que ninguém. Ensinava-lhes que elas eram iguais a todas as garotas da idade delas, com suas qualidades e defeitos. A única diferença era que o pai delas tinha um cargo único e assim mesmo porque foi eleito. Mas que isso era passageiro, que daqui a pouco acabaria e elas teriam que viver na realidade, com os pés no chão. 

JK respirava política, não abria mão do convívio com amigos e companheiros e gostava muito das amizades e de uma boa conversa. Convidava os amigos para fazerem a refeição com ele e por vezes chegava em casa, de surpresa, alegre e espontâneo, dizendo à Sarah que tinham convidados. JK gostava muito de seresta, arte, cultura e conhecimento. Amoroso com as filhas, além de pai, era amigo e professor. Ensinava-lhes a valorizarem toda forma de arte e cultura, revelava a elas a grandeza de seu país, ensinava-lhes a amarem sua nação e seu povo e incutia nelas o orgulho de serem brasileiras.

O primeiro reencontro com a família biológica

Pela primeira vez, após 3 anos, desde aquele Natal na casa de Dina, Maria Estela reviu sua mãe e desfez as suas incertezas sobre o amor que seus pais sentiam por ela. Este encontro e a conversa que tiveram foram fundamentais para a continuidade e felicidade de Maria Estela junto aos Kubitschek. Judith  teve mais cinco filhos: Maria Madalena, Armando, Maria de Fátima, Maria Isabel e Ângela.

Sarah se dedicava muito aos cuidados com as filhas. Vestia-as com roupas idênticas e preocupava-se em fazer Maria Estela sentir-se tão filha quanto Márcia. Quando os irmãos e irmãs de Maria Estela visitavam os Kubitschek, Sarah orientava as meninas a dividirem com eles o que possuíssem, sejam roupas ou brinquedos, ensinando-lhes que elas tinham muito e poderiam ter sempre mais. Na casa dos Kubitschek havia horário para tudo, para comer, para dormir e para se divertir. Sarah era uma mulher muito organizada.

Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas suicidou-se e o PSD indicou o nome de JK para a presidência, nome que o PTB, partido de Getúlio, apoiou. JK se desligou do governo de Minas e transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro, para iniciar sua campanha presidencial. Juscelino decidiu permanecer no apartamento da Sá Ferreira, que chamava de “apartamento da sorte”, pois dali saiu deputado federal e governador de Minas e acreditava que o mesmo aconteceria com a presidência da república. 

Sarah idealizou e formou comitês femininos em torno da candidatura de JK e Maria Estela e Márcia acompanhavam-na a encontros e debates nos quais jovens senhoras eram convidadas a discursar. Em 3 de outubro de 1955, JK foi eleito presidente e os opositores políticos iniciaram uma campanha para impugnar as eleições. Os militares se dividiram e houve uma ameaça de golpe. Sucederam-se neste período, na presidência da República, Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos, que decretou estado de sítio por 30 dias, para garantir a posse de JK e Jango, o que aconteceu em 30 de janeiro de 1956.

Maria Estela ficou fascinada em meio à multidão que acompanhou a cerimônia no Palácio Tiradentes. Ela gostava de conversar com as pessoas e de observar o fascínio que JK exercia sobre elas. Conversava com Juscelino, que dava a ela toda a atenção, lhe explicando o quão importante era ouvir os anseios do povo. JK apertava a mão e abraçava todos que passavam diante dele do lado de fora do Palácio do Catete, pessoas humildes que vinham homenageá-lo. Maria Estela preocupava-se com a tamanha responsabilidade que seu pai Juscelino tinha pela frente. 

A residência oficial do presidente deveria ser o Catete, mas o trauma causado pela morte de Getúlio fez Sarah preferir não se instalar lá, então mudaram-se para o Palácio das Laranjeiras.  A família biológica de Maria Estela vinha visitá-los no Rio de Janeiro e ficavam no palácio com os Kubitschek, onde eram acolhidos com muito amor e respeito, sempre tratados como membros da família.

As filhas estavam presentes em diversos eventos políticos como inaugurações de obras ou a construção de Brasília, viajam por todo o Brasil, quando tiveram a chance de conhecer a Amazônia e visitar aldeias indígenas. Com Sarah, elas realizavam muitos trabalhos sociais, distribuindo sacolas de alimentos, participando de festas para angariar fundos para obras sociais ou vendendo flores em chás beneficentes. 

Filha, um presente de 15 anos

Em dezembro de 1957, Maria Estela foi homenageada pelo seu aniversário de 15 anos com uma bela festa no Palácio das Laranjeiras, onde algumas horas antes, Sarah e Juscelino, na presença de Márcia, deram como presente a Maria Estela a sua adoção oficial. Márcia foi a primeira a achar que era o certo a ser feito e finalmente elas teriam o mesmo sobrenome. A partir daquele dia, Maria Estela passou a chamar Sarah e Juscelino de pai e mãe e, para que não houvesse nenhum mal entendido, chamava seus pais papai Juscelino, mamãe Sarah, papai Oswaldo e mamãe Judith. 

15 anos Maria Estela
Festa de 15 anos de Maria Estela Kubitscheck

Em 1959, Maria Estela fez sua primeira viagem ao exterior, com Márcia e Sarah. Partiram de navio para os Estados Unidos e de lá para a Europa. Foram recebidas pelo Papa, por reis e chefes de Estado, conheceram várias personalidades e artistas importantes, na Inglaterra tomaram chá com a rainha Elisabeth e na França almoçaram com o presidente Charles de Gaulle, quando foram convidadas para debutarem no Palácio de Versalhes

Aos 16 anos de idade, Maria Estela começou a namorar Rodrigo Lopes, filho de um dos ministros de Juscelino e irmão de sua amiga Diana. Em 1961, JK despediu-se do governo, passando a faixa para Jânio Quadros e partiu para a Europa com a família. Em Paris, Rodrigo e Maria Estela anunciaram seu noivado, que foi oficializado em uma festa no Rio de Janeiro, em 18 de junho, vindo a se casarem em 12 de julho de 1962. Mudaram-se para os Estados Unidos, onde Rodrigo foi trabalhar como bolsista e Maria Estela tornou-se dona de casa. Foram tempos felizes, mas financeiramente difíceis.

De volta ao Brasil, Rodrigo e Maria Estela tiveram a primeira filha, Jussarah, em 1964, ano do golpe militar que resultou na cassação e exílio de JK. Depois tiveram João César e, em 12 de setembro de 1968, dia do aniversário de JK, nasceu Marta Maria.

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Livro Simples e Princesa de Maria Estela Kubitschek Lopes

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