Nesses últimos tempos, principalmente nesse último ano, algumas pessoas muito queridas partiram e outras estão doentes… e eu me sinto muito impotente diante dessa situação, porque eu não tenho o poder de preservar a vida delas. E eu tenho pensado muito que não só vidas, mas também histórias de vida estão se perdendo. E elas não voltam mais. E eu tenho pensado que se não temos como trazer de volta as pessoas que partiram, pelo menos podemos fazer alguma coisa para preservar a história delas, resgatar alguma coisa, para que possam ser eternizadas.
Uma amiga muito querida do tempo de colégio está internada em uma UTI, em estado grave. Os colegas da nossa turma organizaram um grupo para fazermos uma corrente de orações a fim de tentar ajudá-la, pois é a única coisa que podemos fazer.
Unidos até hoje
Estamos próximos de completar 40 anos da nossa formatura de segundo grau. A turma já se reuniu algumas vezes depois que saímos do colégio e eu me lembro de ter participado de pelo menos um desses encontros, que foi emocionante, porque pude rever aqueles amigos e amigas já casados e com filhos, alguns com menos cabelo, outros já não tão magros quanto outrora, todos mais maduros e mais sábios, mas cada um conservando a mesma essência dos tempos em que os conheci.
Os anos passaram-se e aquela turma se manteve unida, diferentemente das de colégios anteriores e das quais mantive contato apenas com alguns poucos colegas que tornaram-se meus amigos.
Um tempo na França
Quando eu tinha doze anos, eu e minhas irmãs viajamos com meus pais para Poitiers, na França, onde eles foram fazer suas teses de doutorado. Permanecemos lá por três anos. O francês passou a ser a minha língua principal, o Brasil se tornou um país distante – quando somos crianças, três anos é um longo tempo e quando adolescentes, a vida é muito intensa, vivemos tantas experiências, tantos aprendizados, tantas descobertas, que o passado fica em terceiro plano. Aquele era um mundo completamente diferente do que ficou do outro lado do oceano, no hemisfério sul. Lá eu fiz amigos, vivi as minhas primeiras paixões e construí minha identidade segundo os códigos de socialização da juventude francesa do início da década de oitenta. Durante aqueles três anos, eu e minha família viajamos muito, conhecemos muitos países… uma experiência que poucos adolescentes brasileiros tinham oportunidade de viver naquela época.
Retorno ao Brasil
Quando eu voltei ao Brasil, com quase 16 anos, falava com sotaque, não tinha mais o hábito de escrever em português e a cultura das pessoas da minha idade no Brasil era bem diferente da que eu adquiri no outro continente. É preciso lembrar que naquela época não existia internet, nem telefonia celular, portanto não vivíamos a globalização que vivemos hoje. Tive que me adaptar, me esforçar para compreender os códigos e os valores, para conseguir me relacionar e fazer novos amigos. Não era tarefa fácil. Muitas vezes eu não conseguia me fazer compreender ou não compreendia meus colegas, não entendia porque agiam como agiam. Durante a noite, eu sonhava que estava no velho continente e quando acordava, aterrissava no Brasil, um país com muitos problemas sociais, ainda em tempos de ditadura.

Felizmente, fui bem recebido pelos meus colegas do primeiro ano do segundo grau. Cheguei no mês de setembro. O ano letivo tinha começado na França e no Brasil estava se encaminhando para o fim, mas aqueles dois meses pareceram um ano, pois tudo era novidade para mim.
Naquela época, nosso colégio dividia os dois últimos anos do segundo grau em três áreas: elétrica, química e saúde. A maior parte da nossa turma combinou que, para ficarmos juntos, escolheríamos elétrica. Terminou o ano e entramos em férias. Na volta às aulas, procurei a sala da turma de elétrica, entrei, sentei-me, o professor fez a chamada e meu nome não constava. Saí, procurei meu nome nas listas coladas nas portas das outras duas salas e lá estava meu nome na turma de química. No momento da matrícula, meu pai se esqueceu qual opção eu tinha informado a ele, então escolheu qualquer uma. Tentei uma mudança, mas não consegui. Felizmente, na nova turma fiz bons amigos, mas não posso negar que aquela nova separação não aconteceu sem alguma dor.
Os dias de hoje
Hoje, em nosso grupo de whatsapp, compartilhamos fotos daqueles tempos. Nossa amiga na UTI está mostrando para nós que o tempo não mudou o sentimento que nos une. As mensagens de apoio e de otimismo de cada um lembram o espírito de união que tínhamos na época das olimpíadas da escola. Todos vibrando juntos, torcendo e lutando. E assim como nas olimpíadas, em que algumas vezes a única coisa que podíamos fazer era ficar na arquibancada torcendo e rezando para que o nosso time vencesse, hoje estamos torcendo para uma de nossas melhores atletas.
Relembrar tudo isto e estar em contato com estas pessoas por quem criei um vínculo de amizade e de carinho me faz pensar que a história desse grupo e dessas pessoas deveria ser registrada, para não se perder quando partirmos, pois sinto que deveríamos eternizar as histórias que para nós têm valor. E para mim, cada uma das pessoas desse grupo tem um imenso valor.
No momento em que eu escrevo este texto, recebo a triste notícia de que minha amiga Liede acaba de deixar este plano. Fica um grande vazio, impossível de ser preenchido. Dedico este texto à sua memória.
Vá em paz, querida amiga!

