Neste dia das mães, homenageio a todas reverenciando a minha, que partiu em 8 de dezembro de 2013, da maneira que sempre desejou, suave e sem dor, com seu coração parando de bater enquanto dormia. Depois daquele dia ela faz muita falta. Foi uma grande referência para mim, em todos os sentidos. Grande mãe, grande profissional, grande ser humano, grande mulher. A paixão dela era, enquanto professora de geografia, educar e ensinar crianças e jovens.
Zuleide Cesconetto Fernandes. Cesconetto da mãe e Fernandes do pai. Nasceu em 11 de setembro de 1943, em Lauro Müller, uma pequena cidade no sul de Santa Catarina. O mundo estava em guerra e naquele mês os alemães invadiram a Itália, país de origem de seus avós maternos.
Ela se mudou para Florianópolis no início da década de cinquenta com seus pais, quatro irmãs e um irmão. Naquela época, mais que hoje, o mundo era muito machista. Meu avô ditava as regras e todos deviam obedecer. A mulher devia ser submissa ao homem.
Chegaram os anos 60 e com ele, os ares de ideias de emancipação da mulher. Fico imaginando o que passava pela cabeça de jovens mulheres como a minha mãe, vivendo a opressão social da época e desejando uma realidade diferente. A única maneira de conquistar alguma “liberdade” sem romper com a sua família era através do casamento.

O papel da mulher no casamento era ter filhos, cuidar deles, cuidar do lar (fazer a comida, lavar a louça, limpar a casa, lavar e passar as roupas) e cuidar do marido. Mesmo em silêncio, ela buscou romper com a regra da opressão. Casou-se com um professor que havia estudado na França, o que já representava alguma esperança. Minha mãe teve três filhos, primeiro eu e depois minhas duas irmãs, cuidou de nós, mas não desistiu de seu projeto profissional, formou-se em geografia e continuou sendo professora.
Minha mãe acreditava que o único jeito de melhorar o mundo e a vida das pessoas era através da educação. Ela ensinava com paixão. A escola era o lugar onde ela se realizava. Era como se cada aluno fosse seu filho. Ela amava falar sobre o planeta, sobre as forças da natureza e sobre a importância de lutarmos para acabar com a poluição. Defendia o uso de energia limpa, assinava revistas de ecologia, fazia doações ao Greenpeace e, entusiasmada com o movimento lixo zero, implantou a ideia em sua casa.
Minha mãe me fez admirar as mulheres e respeitá-las. Ela amava minha filha. Pena que não ficou para acompanhar seu crescimento. Aliás, estranhamente, esse era o receio que a deixava triste, como se ela soubesse que partiria em breve. Minha filha foi o motivo de sua felicidade nos últimos anos de vida. Ela amava ficar com a Helena, ensinando-a a costurar, pintar e cozinhar.
Minha mãe era muito carinhosa, alegre, sonhadora, otimista, tinha uma estranha mania de copiar e colecionar receitas, sempre gostou de pintar quadros e lia muito. Nós não sabíamos, mas era ela o elo que mantinha a família unida e estruturada. Sem ela, quando eu, minhas irmãs e meu pai nos encontramos, não é mais a mesma coisa. Tudo mudou. Um vazio impossível de preencher. Como dizem os budistas, a grande verdade é que tudo é impermanente. Ela se mantém sempre comigo e, honrando-a, busco melhorar a mim mesmo um pouco mais a cada dia.

