Um dia desses, pesquisando na internet sobre histórias de família, encontrei um lindo filme de curta metragem que expressava exatamente o que eu buscava. Chama-se Fotossensível. Para minha surpresa, a diretora foi minha aluna no curso de cinema da Unisul, Cristina Kreuger, com quem eu tive o prazer de trabalhar em 2010, na realização do filme Fritz, de José Alfredo Abrão.
Procurei o contato da Kike, como ela gosta de ser chamada, e tivemos uma conversa em que ela me falou um pouco sobre o seu filme. Expliquei a ela sobre o meu projeto de ensinar às pessoas a transformar suas histórias de vida em filme e disse que faz parte desse projeto ajudar as pessoas a compreenderem melhor a importância de suas histórias e ensinar como cuidarem de seus acervos históricos como fotos, slides, filmes, fitas de vídeo e fitas k7.
Não jogue fora!
Como uma coincidência do destino, Kike disse que estava prestes a jogar fora uma caixa de slides de seu pai, pois iria se mudar e precisa se desfazer de algumas coisas para reduzir o volume de objetos acumulados ao longo do tempo. Lhe falei da importância daquele material e indiquei a ela um scanner, para que ela digitalize os diapositivos, já que lá estão os registros de um tempo que não volta mais e que em algum momento podem ser um elo para ela e outras pessoas.

O seu filme começa com imagens de águas sendo cortadas pela proa de um navio, detalhes de uma escotilha e crianças brincando em um trenzinho de parque infantil. São cenas captadas em 16mm pelo avô de Kike, enquanto a voz de seu pai em off fala justamente do valor dessas imagens: “É uma forma de você congelar o tempo e eternizá-lo no futuro, tanto sendo foto como cinema. E com isso você pode resgatar o passado e você cria uma dimensão que na verdade está na cabeça de quem vê. Mas a imaginação faz o complemento disso tudo e cria essa eternização do momento. É uma volta ao tempo”.
“É uma forma de você congelar o tempo e eternizá-lo no futuro”
Colocando uma película em um projetor e assistindo às antigas cenas, ele conta para a filha as histórias sobre seu pai, um sueco, capitão de navio que navegou por todo o mundo durante a segunda guerra mundial. Depois mostra para a filha suas próprias filmagens, feitas com uma câmera super 8 na juventude, quando se aventurava como surfista pelas praias do sul do Brasil, além de imagens da própria Kike quando criança. As gravações que Kike fez de seu pai para este filme são os últimos registros que ela tem dele, pois ele viria a falecer quinze dias depois, vítima de um câncer.
Para Kike, a câmera é como uma máquina do tempo. Ela diz que quando pediu para o pai montar o projetor e registrou esta cena, era uma tentativa dela de materializar uma imagem que existia apenas na sua mente. E hoje, a imagem dele não é mais real, é algo que ela só pode ver assistindo ao vídeo que fez e repetir o tempo como um relógio que nunca pára, até quando chegar o tempo que não será mais o seu, passando de geração para geração, como um ciclo vicioso, inalterável.
Kike herdou do avô e do pai o gosto pela fotografia e pelas câmeras. Formou-se em cinema, tornou-se assistente de câmera e depois diretora de fotografia, trabalhando com diversos diretores em importantes produções, imprimindo nos trabalhos que faz a sensibilidade do seu olhar. Em uma live gravada no início deste ano, ela diz que o objetivo com este filme era deixar a mensagem sobre a importância da imagem, de gravar hoje para poder ter esse registro no futuro.

